Matérias | Entrevistão


Guido Petinelli

O melhor empreendimento é aquele que enriquece o bairro.”

CEO na Petinelli Engenharia e Consultoria em Construção Sustentável

Redação DIARINHO [editores@diarinho.com.br]


Aos 39 anos, Guido Petinelli é CEO de uma empresa que se destaca pelas edificações autossuficientes, responsável por colocar o Brasil no mapa das construções verdes. Atuando, há quase duas décadas, neste mercado, Guido mostra, através de exemplos práticos, que a sustentabilidade é, economicamente, viável e está ao alcance de todos os brasileiros. Nesta entrevista à jornalista Franciele Marcon, Guido fala sobre o “mito” de que construções sustentáveis são caras. Explica que toda a edificação pode ter uma gestão sustentável e opina sobre as construções no litoral norte catarinense, onde mora atualmente. Guido também aborda o futuro da Praia Brava. As fotos são de Fabrício Pitella. O Entrevistão completo você confere, também, em texto, vídeo e áudio em www.DIARINHO.net e nas redes sociais.


 

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DIARINHO - O Brasil vive uma crise hídrica, cenário que tende a piorar nos próximos anos. Como a sustentabilidade em projetos da construção civil pode ajudar a enfrentar esse momento delicado?

Guido: Eu começo definindo o que é um prédio sustentável. Ele fornece mais eficiência, a um menor custo operacional, mais conforto e bem estar. E, obviamente, se você estiver fazendo essas duas coisas, também está reduzindo o impacto ambiental. Quando a gente fala da crise hídrica, toda água que a gente deixa de consumir, é aquela que não precisa tratar. É reservatório que está se conservando. Eficiência, em termos de uso de recursos naturais, não é só uma questão ambiental. Hoje, expandir a capacidade de abastecimento significa investimento pelo poder público e impacto ambiental em termos de infraestrutura. A melhor medida é pensar de forma criativa, de como fazer mais com menos. Na construção sustentável, é essa a regra. Como eu construo um prédio que consome menos energia e água, forneço mais conforto e tem impacto ambiental menor. Como faço isso pelo custo de um prédio convencional? Se eu consigo fechar essa conta, não tem porque não fazer um prédio sustentável; é parte da solução para o problema da crise hídrica.

DIARINHO – A arquitetura, a engenharia e a preservação do meio ambiente podem caminhar juntas em qualquer empreendimento?

Guido: Elas deviam sempre caminhar juntas. Nós construímos prédios, seja residência, apartamento, escola, escritório, porque é onde as pessoas habitam. Você constrói com um propósito: fornecer segurança, conforto e bem-estar. E, dentro de um ambiente X, eu preciso de iluminação para ter conforto térmico. Preciso de ar-condicionado. Pra usar o banheiro, preciso de água. A maneira com que o engenheiro ou o arquiteto projetam esses edifícios, a maneira como nós construímos esses edifícios tem uma grande oportunidade para impactar o meio ambiente. O que é fazer mais com menos? É construir um prédio, vastamente, mais eficiente e confortável sem, necessariamente, gastar mais pra fazer isso. Hoje o Brasil desponta como referência nesse assunto. Já temos dezenas de projetos, no nosso quintal, que ilustram isso, que é possível.

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DIARINHO - Soluções sustentáveis costumam encarecer as obras numa conta feita a curto prazo. Como convencer o investidor e o consumidor, que vai comprar aquele imóvel, a pagar mais caro sob a justificativa de que se trata de um empreendimento sustentável?

Guido: Primeiro que custar mais caro é um mito. Eu uso o exemplo da lâmpada LED e da fluorescente. Você está na frente da prateleira do supermercado: LED é R$ 15, e fluorescente, R$10. Você gasta um pouquinho a mais porque ela é mais eficiente, se paga com o tempo. O que não passa pela sua cabeça? É que, pro fabricante, é mais barato fabricar a LED do que a fluorescente. A realidade é que, quando a gente fala de produtividade na construção civil - não estou falando de fazer um prédio mais eficiente gastando mais -, estou falando em como melhoro a produtividade do meu negócio, como entrego um produto melhor, pelo que custa o meu convencional hoje. Isso é inovação. Fazer melhor significa estar aberto a fazer diferente. Quem não está aberto a fazer diferente, não está aberto à inovação, não vai melhorar o produto nunca... Olha o quanto o agronegócio ganhou em produtividade nos últimos 30 anos e quão pouco a construção civil ganhou de produtividade comparada ao agronegócio. Qual deveria ser o objetivo de qualquer um que trabalha na construção civil? Como o meu próximo prédio pode ser melhor que aquele que construo hoje pela mesma base de custo? Eu atuo nessa área faz mais de 15 anos, e, no Brasil, há 12 anos. A gente trabalha conceito, e dimensionamento antes de comprar o LED. Exemplo: uma sala de aula tem, mais ou menos, 60m². Se eu faço uma sala de aula com piso escuro, preciso de 12 luminárias. Se faço uma sala de aula com piso claro, preciso de nove luminárias para manter o mesmo nível de luminância na superfície. Estou reduzindo o custo de obra, porque, agora, ao invés de comprar 12 luminárias, compro nove. Estou reduzindo o custo de operação. Fiz isso mudando a cor do piso. [Mas se é um mito falar, porque as pessoas ainda têm isso muito forte, no discurso? Faltam empresas capacitadas, profissionais capacitados?] Falta cultura de inovação na construção civil. Se você for dona de uma construtora e chegar para a tua equipe: “Pessoal, a única coisa que eu peço é que melhorem em 5% a qualidade do prédio em relação ao último que a gente construiu, com custo zero”. Pega exatamente aquele prédio e me identifica oportunidades para melhorar conforto e bem estar. (...) A gente não tem essa cultura da inovação, de estar sempre se desafiando...

DIARINHO - Você acredita que as universidades estão preparadas e já ensinam os estudantes, engenheiros, arquitetos, com base nos conceitos sustentáveis?

Guido: Eu coloco da seguinte maneira. Me formei fora, passei 15 anos na América do Norte. Lá você vai para a universidade para aprender a aprender e não, necessariamente, para adquirir um conhecimento específico. Você não entra pra fazer medicina para sair médico. Você não entra na engenharia para sair engenheiro. No Brasil, é um pouco diferente. Eu acho que o mais importante é a universidade preparar o aluno para pensar por si só, para pensar de forma crítica e para aprender a continuar aprendendo o resto da vida, porque você nunca para. Eu acredito que, hoje, se eu tivesse que orientar a universidade, sobre que tipo de profissional eu busco dentro da Petinelli, falaria que é um cara com capacidade analítica crítica boa. Alguém que aprendeu a tirar prazer de pensar em como resolver um problema. O resto ele aprende, vai continuar aprendendo. O fundamento tem que estar ali, a matemática, a física, saber se comunicar. Mas todo o resto você vai, realmente, aprender na hora que chega no mercado. O recém-formado vai adquirir o conhecimento prático dentro da empresa, não na universidade. Isso é uma visão bem norte-americana. Já o brasileiro espera que a universidade forneça esse conhecimento. Mas a universidade não consegue se manter atualizada, rápido o suficiente, pra acompanhar o ritmo de inovação. O que ele aprende mesmo é desenvolvido dentro da empresa.

DIARINHO - Como uma empresa ou indústria, já estabelecidas, podem começar a se adequar a um ambiente sustentável? Qual o primeiro passo?

Guido: Primeiro que eu gosto de dizer: todo mundo, quando pensa em melhorar, pensa: “Eu vou gastar um pouco pra melhorar algo, e esse resultado justifica o investimento”. Errado! Todos os prédios existentes apresentam oportunidades de melhorar desempenho, eficiência, conforto e meio ambiente com zero custo adicional de obra. Na sua casa, a escolha do seu detergente, dos materiais de limpeza, afeta o seu bem estar e saúde. Tem uma série de escolhas que posso fazer - e eu sei que a barreira é falta de conhecimento - a custo zero ou de muito baixo custo. Exemplo clássico é a tua mãe falando: “Você acha que eu sou sócia da Celesc?”. Ela estava certa! Antes de olhar pra eficiência da lâmpada, estou olhando pra como uso a lâmpada. Antes de olhar pra eficiência do meu escritório, me pergunto se estou deixando o monitor ligado durante à noite ou no final de semana. Eficiência, conforto e sustentabilidade estão acessíveis pra todos. Eu não preciso começar gastando. Eu preciso começar pensando. Como que posso avaliar o jeito que faço hoje e me perguntar: “Com as mesmas coisas que tenho hoje, como posso fazer melhor?”. Pra fazer melhor, tenho que estar aberto a fazer diferente. Eu não tô falando pra você tomar um banho mais curto. No chuveiro, a água quente é energia líquida. Isso está acessível a qualquer um: reduzir a vazão do seu chuveiro. É o primeiro paradigma a ser quebrado. Todo prédio, mesmo que não seja sustentável, pode ser operado de forma sustentável.

DIARINHO - Os novos condomínios oferecem estruturas de minicidades, prometendo evitar que as pessoas se desloquem, cada vez menos, e que possam estar em ambientes seguros e confortáveis. O senhor é favorável a essa nova concepção de cidade?

Guido: O grande argumento é segurança, e não nego isso. Hoje moro na região porque acho que a gente, no Sul, é privilegiada nesse aspecto. Tem uma questão que vai além dos itens que fazem parte do nosso cotidiano. O ser humano é, por natureza, um ser sociável. Nós vivemos em comunidade. Se você começa a se perguntar o que é uma comunidade vibrante, é uma comunidade, relativamente, densa, onde você tem uma massa crítica de pessoas, é diversificada. Você tem jovens, idosos, pessoas que acordam todos os dias e vão trabalhar... Você tem pessoas que ficam em casa pra cuidar dos filhos. E você quer promover a interação social o máximo possível. Empreendimentos concebidos dentro de um conceito de novo urbanismo. São comunidades voltadas pra fazer atividade física, caminhar antes de pegar o carro, usar a bicicleta, ter o grupo de pessoas que joga bocha ou dominó na praia, no parque... Comunidades pensadas para o bem estar das pessoas no convívio social, e, geralmente, são comunidades de sucesso. Mas, como o condomínio conversa com o contexto, é superimportante. Balneário Camboriú é um fantástico exemplo disso. O embasamento comercial, o prédio de apartamentos em cima, o adensamento, a distância entre as quadras. Tudo isso contribui para convidar a pessoa a ir à rua. Ter infraestrutura dentro do condomínio é superimportante, mas, o condomínio se comunicar com a cidade, é fundamental para criar um espaço mais seguro.

DIARINHO - As pessoas, que podem pagar para viver em condomínios com áreas de lazer, verdes, seguras, limpas e confortáveis, tendem a não frequentar os espaços públicos das cidades, como parques e praças. As cidades não perdem quando deixam de ter áreas de convivência seguras e acessíveis a todos os moradores?

Guido:  Eu vejo o conceito do novo urbanismo, a ideia do olho na rua, como uma medida de segurança pública, ter empreendimentos próximos do alinhamento predial. O famoso lote zero. Ter o comércio ou outras atividades não residenciais no embasamento de edificações. Porque, se você tem alguém entrando e saindo de uma loja, mesmo que seja um posto de gasolina, aquela atividade vai tornar o ambiente mais seguro. O melhor prédio é aquele que enriquece o bairro. O papel dele valoriza o seu metro quadrado. Qual é o órgão humano mais sensível? É o coração, é a mente ou é o bolso? É o bolso. Não faço sustentabilidade porque sou bonzinho. Faço sustentabilidade porque é o melhor negócio, a melhor maneira de aplicar e gerir recursos. Valor pra sociedade, valor pro investidor, valor pro meio ambiente. Sustentabilidade não é meio ambiente. Sustentabilidade é o social, o econômico e o ambiental juntos. Se eu tenho desequilíbrio entre essas três peças, quem paga a conta é a sociedade. De novo, a região aqui é um exemplo disso. Mas o que é a chave? O espaço público. A gente hoje, no Brasil, sabe que depender do governo é complicado. Surge o espaço privado de uso público. É uma grande evolução em termos de como é que a gente cria as comunidades em que queremos viver. Hoje a gente não consegue fazer isso sem o espaço privado de uso público.

DIARINHO - O senhor tem atuado em projetos na região. Tem analisado as ciclovias, os parques e as praças das cidades de Itajaí e BC? O que acha deles?

Guido: Eu acho que, aqui, organicamente, o que eu quero dizer organicamente, quando você mora numa área adensada, você tem um número de habitantes que permite ter vários serviços. Você descer do seu apartamento, e a padaria vira uma extensão da tua cozinha. A praia, a Atlântica, é um espaço que orienta o desenvolvimento da cidade. Nem todo mundo é igual. Nem todo mundo quer estar na praia. Neste aspecto, o poder público tem um poder enorme quando a gente fala de zoneamento. O que eu quero dizer com isso: as mesinhas do café na calçada são um espaço privado de uso público. Aquela mesinha do café é tão importante quanto o parque. A prefeitura privilegiar a criação de espaços públicos é superimportante. Mas, na concepção do zoneamento, incentivar, reconhecer, permitir que o setor privado esteja criando esse tipo de ambiente é chave. Esse é um dos principais elementos. Em inglês, tem uma palavra chamada placemaking, que é como crio um lugar onde as pessoas se sentem bem, que atrai pessoas. Você pode ter o melhor planejamento urbano do planeta... Mas, se não atrair as pessoas, aquele lugar nasce morto. O papel do setor privado, dentro do contexto brasileiro, é fundamental... Mas aqui, em Balneário Camboriú, o camelódromo é um fantástico exemplo disso. Entendeu? É aquela vida que o ambiente tem. Eu acredito que Balneário, e não tenho como reclamar do ponto de vista de qualidade, sempre pode melhorar.

 

Todo prédio, mesmo que não seja sustentável, pode ser operado de forma sustentável”

 

DIARINHO - Sua empresa ganhou o prêmio green building, que é uma certificação internacional, como se fosse um “Oscar das construções sustentáveis”. Qual obra sua garantiu essa premiação? Qual o diferencial dela?

Guido: Os primeiros prédios zero energia e zero água no mundo são brasileiros. São verde e amarelo. Isso, pra gente, é uma fonte de orgulho enorme. Estão em Curitiba. Mas o primeiro prédio com autossuficiência em água, voltando pra nossa pergunta da crise hídrica, é um prédio de escritórios, uma incorporação imobiliária. Um prédio que foi construído pra ter lucro, que trata 100% do esgoto do jeito que a natureza faz. Aqui no litoral é chamado de mangue, no interior é chamado de brejo. Ele tem um brejo artificial de 500m² no telhado. E por quê? Porque foi a solução mais barata. Foi a solução que permitiu ser mais eficiente com zero custo adicional de obra. O incorporador poderia ter construído um prédio convencional. Ele escolheu construir um prédio LEED, que é uma certificação de sustentabilidade, zero água. Por quê? Porque ele pode. Foram eles que nos ensinaram isso: “Não mexe no meu orçamento, mas você pode otimizar as partes”. Esse trabalho permitiu a gente fazer os primeiros prédios zero. O prêmio é o Leadership Award do SGBC, o Green Building Council, Conselho de Construção Sustentável dos Estados Unidos, pelo nosso trabalho pioneiro com edifícios autossuficientes em energia, autossuficientes em água. [A sede da Petinelli também busca ser autossuficiente em água, em energia? ] Nós já somos zero carbono e zero energia. Agora somos zero resíduos também. Quando a gente fala de zero, zero é o Santo Graal. Eu tenho zero energia, zero água, zero resíduo e zero carbono. Zero resíduo é o tipo de coisa que todo mundo consegue fazer em casa. A gente só não faz por falta de força de vontade. O escritório contrata uma empresa pra coletar o nosso lixo orgânico, pra não ir pro aterro da prefeitura. Eu gasto R$ 50 por mês, sou uma empresa, não uma residência, e ali trabalham 40 pessoas. Eles pegam todo o lixo orgânico, compostam e trazem de volta. A gente tem um terreno grande, vai pra nossa horta. É menos dor de cabeça. Mais prático contratar eles do que a gente ter uma composteira no escritório. O que quero dizer com isso, é que soluções existem, realmente falta é conhecimento. Qualquer empresa pode ser zero resíduo, você, no seu dia a dia, pode ser zero resíduo. De novo, sem, necessariamente, grandes investimentos. A gente tá num processo de mostrar pro mercado que isso é possível.

DIARINHO- A praia brava, em Itajaí, é o bairro mais agreste e o mais valorizado economicamente. Lá estão os imóveis mais caros da cidade e a praia mais preservada. Como o senhor avalia esse bairro, que se tornou referência em qualidade de vida e também está no auge da preferência da construção civil?

Guido: Qualidade de vida é o ponto chave.  É instinto humano querer melhorar. Qualidade de vida é o que a gente imagina ser a vida que a gente quer viver. A gente vai buscar isso. Chega um momento da sua vida, se você pode morar melhor, você quer morar melhor. Mas, como cidade, gosto de fazer uma brincadeira... A gente fala, conforto e bem-estar. O que isso significa na prática? Eu falo: “Olha, é você entrar no carro e passar três horas pra ir passar domingo de tarde numa cachoeira.” Você fala pra mim que estar próximo da natureza não é instinto humano. É óbvio que a praia tem um papel muito especial. O ser humano é programado pra se sentir bem próximo de vegetação, do mar. A Praia Brava é um lugar muito especial. A questão é: como concilio desenvolvimento e proteção ambiental? Como crio um lugar confortável, que as pessoas se sentem bem e seguras, e lido com essas duas pressões, a econômica e a ambiental? Se as pessoas estão ali, elas vão buscar por infraestrutura. Eu acho que a Brava vive aquele momento em que a gente decide quais são os nossos valores como sociedade. Se eu vou construir ali, eu devia estar construindo os prédios mais sustentáveis do planeta. Se já existe um prédio zero água em Curitiba, não tem porque todos os prédios ali não serem zero água. Como que a gente pensa no projeto, na ocupação, na construção desses edifícios é absolutamente fundamental. [Como você avalia as escolhas feitas na Brava?] Eu acho que inovação é quebra de paradigma. Eu acho que, hoje, nenhuma construtora pode ignorar a questão da sustentabilidade. Muitas vezes, o construtor olha pra sustentabilidade apenas como ecochatice, e não é o caso. Os meus clientes, ali, são aquelas construtoras que já tão falando, eu tenho o que a lei exige, eu tenho o que é padrão de mercado. E, pra fazer um green building, tenho que ir muito além de um padrão de mercado. Eu não vou fazer um telhado verde. Eu vou restaurar habitat no meu telhado. O Eurobusiness colocou um brejo de 500m² em cima de um prédio de 14 andares. Se o Eurobusiness consegue colocar um brejo, reproduzir um mangue... Poxa, vou me inspirar em cima da legislação ou vou muito além da legislação? Acho que o princípio, ali, é esse. Quem está indo morar na beira da praia está buscando uma conexão com a natureza. Naquela localização, não tem como falar disso sem uma integração com o meio ambiente muito profunda. Construir um prédio sustentável, ali, é o único prédio a ser construído. Por quê? Porque tá alinhando questões econômicas, tá alinhando questões ambientais, tá alinhando questões sociais. Não construir nada, ali, é priorizar o meio ambiente, desequilibrar essa equação, inevitavelmente, quem paga por isso é a sociedade. Isso acho que todo mundo já aprendeu. Eu não posso deixar nenhum grupo sequestrar um discurso. Vou falar uma coisa que é controversa até com meus clientes, esses três itens estão sempre em negociação. E o que é uma boa negociação? Quando todo mundo sai da mesa descontente. Quando ninguém sai ganhando. Todo mundo tem que abrir mão um pouquinho. Eu acho que isso é, hoje, uma briga de interesses ali. Eu estou olhando pros meus clientes e falando, se levanta e mostra que tem um jeito de fazer o certo e não o que todo mundo tá fazendo. Mostrar que é possível desenvolver a Brava de forma sustentável. De que insustentável é imaginar que, priorizando só um tema, a gente pode ignorar os outros dois.

DIARINHO – Atualmente, nessa mesa de negociação, está,  justamente, o sombreamento da Brava. Há uma disputa judicial sobre a altura dos edifícios na quadra do mar e a questão do sombreamento da orla da Brava. Qual a sua opinião ? Como solucionar o embate de forma positiva para a cidade?

Guido: A minha visão é que eu não conheço um ser humano, no planeta, a favor de ter sombra na praia. A questão, ali, foi formatada dessa forma. O engraçado é a maneira com que isso está sendo discutido. De uma certa maneira, a liminar, a decisão judicial, forçou uma discussão dentro de linhas que não têm embasamento técnico. O que quero dizer com isso é que limitaram a sombra às 17h no inverno. Por que às 17h? Por quê, não, às 16h? Por quê, não, às 17h25? Às 17h25 é o pôr do sol. Por quê, não, às 16h27? Uma hora antes do pôr do sol. O técnico quer entender qual o problema que a gente está tentando resolver. É conforto e bem-estar? É meio ambiente? Eu tenho que equilibrar essas três coisas. Se tenho que equilibrar essas três coisas, estou me perguntando: o que é desenvolvimento sustentável ali? A realidade é que, do jeito que foi escrita a decisão, não permite sombra no inverno, significa que, na quadra mar, você não constrói um pavimento. Vou colocar o que é pavimento. Aquele sobrado que você sempre sonhou de ter, um dia, à beira da praia, tu não constróis hoje mais na Brava. Me parece um extremo. Eu uso isso pra expor o quão arbitrário é esse critério. Eu sou totalmente a favor de não sombrear a praia. Agora, isso tem que ter algum tipo de embasamento técnico nessa decisão. [Numa visão técnica, como seria essa solução?] Eu vou começar com as pessoas. Porque eu acho que é sempre isso. Se você perguntar, pra maior parte das pessoas, o pessoal vai falar, não, eu não quero ter sombra na praia no verão. No dia 21 de junho, isso é bem menos importante do que de novembro a março. Eu acho que esse é o primeiro ponto. Segundo, a hora que a gente olha e pensa no bem-estar da restinga, a hora que a gente pensa no impacto do sombreamento na praia, a gente tem que levar em consideração que, no final do dia, a minha radiação já é bem menor. Se você perguntar pra mim, Guido, qual é o impacto, naquele faixa de restinga? Olha, se, no inverno, eu tenho um empreendimento de seis andares, na Brava Sul, o impacto é mínimo pra não dizer zero. Ok. A sombra também anda, todo mundo sabe disso. A gente vem fazendo uma série de estudos para trazer um pouco de ciência para essa discussão. Eu vou dizer, dos nossos clientes, alguns dos empreendimentos que a gente estava trabalhando, não vão ser afetados pela decisão. Porque já tinha um cuidado, um carinho de construir um empreendimento que não fazia sombra na praia. Porque é o que, quem mora ali, tem como expectativa. Mas eu acho que foi totalmente arbitrária a decisão do jeito que foi escrita. Nenhum ser humano seria contra construir um sobrado de dois andares à beira mar... Porque, sinceramente, do jeito que tá, hoje, quem sofre é o social, quem sofre é o econômico, a custo do meio ambiente. Muita conjuntura, muita evidência circunstancial, pouca ciência pra embasar aquilo ali. Eu falo com paixão porque trabalho com sustentabilidade. Passo todos os dias convencendo construtor que sustentabilidade não é fazer o bem pros outros. Que sustentabilidade é fazer o bem pra ele. Ele está melhorando o produto, ele tá sendo mais produtivo. E se ele é mais produtivo, ele é mais competitivo. Ele vai ter um melhor resultado, construindo um prédio que entrega um bairro melhor.

 

Raio X

NOME: Guido Petinelli

NATURAL: Londrina, Paraná

IDADE: 39 anos

ESTADO CIVIL: solteiro, sem filhos

FORMAÇÃO: bacharel e mestre em Arquitetura pela McGill University, de Montreal, no Canadá; especialização na MIT Sloan School of Management. 

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL:  diretor na World Green Building Council até 2008; vice-presidente da Iliv até 2009; e, em 2009, fundou a Petinelli Engenharia e Consultoria em Construção Sustentável, onde é CEO há 12 anos; recebeu o Prêmio LEED Fellow, em 2018, um reconhecimento aos profissionais que contribuíram para o avanço de construções sustentáveis no mundo. O escritório da Petinelli, em Curitiba, possui os certificados LEED Platinum, LEED Zero Energy, Zero Carbon e Zero Waste. Ele também recebeu o prêmio Leadership Awards 2019 do USGBC (U.S. Green Building Council).

 



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